quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O Dragão, O Beija-Flor e O Erótico (Ana Lidia Pimentel)


O que se pode dizer do erotismo ou daquilo que é ou não é erótico?
Erotismo não é pornografia. Disso, todos ou quase todos nós, sabemos.
Mas afinal o que é erótico?
Um grande decote é erótico? Acho que não. É apenas sexy.
Acho que são eróticas, algumas coisas que acontecem involuntariamente.
Se a moça entrou no mar e saiu com frio, ficar com os bicos dos seios durinhos, isso pode ser erótico ou simplesmente natural.
Se o cara “saradão” entrar na água, sair com frio e ficar com o “bilau” murchinho, isso não é erótico. É engraçado. Quase ridículo. Embora seja natural.
Se a namorada do cara “saradão” começa a passar protetor solar nas costas e no peito dele e com isso o “bilau” se animar, pode-se dizer que é erótico. Pra eles. Pra qualquer outra pessoa, será voyeurismo.
Perceba-se, assim, que o ser ou não ser erótico, depende muito da situação.
Quando se vê um pedacinho da tatuagem de um dragão na virilha de alguém e se fica excitado, imaginando onde estará tatuado o rabo do dragão, isso é erótico.
Se a tatuagem de um beija-flor esvoaçando bem perto do reguinho do bum-bum, nos fizer imaginar tudo que o beija-flor vai querer e poder beijar, então, isso também é erótico.
É erótico, tudo aquilo que não se vê, mas nos faz imaginar o que poderia ser, se estivéssemos vendo. Curiosidade erótica. Tesão.
Pensando bem, erotismo e romance, também andam de mãos dadas.
O beijo que demora pra acontecer, por que os lábios ameaçam se tocar, mas não se tocam, querendo se encontrar, mas não se encontram, porque se procuram, demoradamente, desejando perenizar o momento... Isso é erótico. É romântico!
Fala-se da importância das preliminares, quando se quer fazer amor gostoso e prazeroso. E o que são essas preliminares? Não são, elas, essencialmente eróticas?
O toque, o cheiro, o gosto, os sussurros, o vai-não-vai, o calor dos corpos querendo chegar ao clímax, mas ao mesmo tempo, querendo que aquele gozo nunca se acabe... É erótico. É romântico.
O erótico é ousado e suave. Lento e delicado. É sedução.
Pode-se sentir o arrepio percorrendo o corpo, sem que se tenha sido tocado.
É imaginação quase tangível.
Quem precisa de bundas, seios, pênis ou vaginas pra ser ou fazer algo erótico?
O erotismo está dentro da cabeça da gente e não fora dela. Não está nem na nudez e nem no escracho daquilo que é óbvio.
O sexo vulgar, já tão explorado, falado e banalizado, quase perdeu a graça.
Quase foi só prazer. Quase foi só como um drink ou um cigarro.
O erotismo recicla o amor. Reedita o primeiro encontro. Reencontra o primeiro amor.
E o amor, esse incansável romântico, que insiste em nos enredar?
Tão fundamental é o amor romântico, que, sem ele, o sexo seria só maquinal e o mundo, um grande puteiro, nada erótico!

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Chapéus (Ana Lidia Pimentel)


"Olha aí minha gente! Nesse sol quente, não tem cabeça que agüente! Olha o chapéu!"... Era este o slogan do vendedor na praia. E eu, ali sentada, num banco do calçadão, tomando minha água de côco, pensei comigo mesma: Chapéus... Chapéus...
Um chapéu cobre e protege a cabeça da gente. Hoje em dia, quase ninguém usa chapéu. Usam boné.
Há alguns anos atrás, as senhoras não saíam de casa sem chapéu. Os homens, que, então, ainda eram chamados de cavalheiros, quase sempre usavam chapéu.
Charles Chaplin eternizou Carlitos com bengala, bigode e chapéu.
Churchill usava chapéu. Frank Sinatra também. A rainha da Inglaterra ainda usa chapéu. Tira o chapéu para colocar a coroa.
Será que coroa é um tipo de chapéu? E turbante? É chapéu? Se turbante for chapéu, Osama Bin Laden usava chapéu. Não, não, prefiro que turbante seja só turbante.
Rodolfo Valentino usou turbante e chapéu. Greta Garbo também. Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, usaram chapéu em Casablanca.
Minha amiga Wilma, escreveu um lindo conto, sobre seu marido Arthur e seu chapéu.
Arthur é nome de rei e rei usa coroa, mas se quiser, também pode usar chapéu.
Chapéus... E se eu fosse um chapéu? Turbante do Bin Laden, eu não quero ser!
Protetor, um chapéu deve proteger da chuva, do sol e até de titica de passarinho. Arrrg!
Homem careca, quando põe chapéu, fica mais moço. Moço careca, sem chapéu, parece mais velho.
Mas e se eu fosse o chapéu do Frank? Será que eu cantaria como um Sinatra? O que será que sente um chapéu, ao cobrir determinada cabeça? Será que assimila a personalidade do dono? Tão próximo do cérebro, não seria difícil escutar pensamentos, descobrir segredos e antecipar intenções.
Engraçado como associamos a imagem de uma pessoa ao seu chapéu...
Noutro dia encontrei, na rua, o rapaz que sempre me atende na padaria. Sem o “bi-bico”(aquele chapeu de duas pontas), quase não o reconheci.
Chapéu não é peça de vestuário, é complemento de personalidade.
Sim senhor, complemento de personalidade!
Tire o chapéu de Santos Dummont e quem é que o reconhece?
Mas de Santos Dummont, não se tira o chapéu. Nós é que devemos “tirar o chapéu” pra ele!
Tem chapéu de todo tipo: chapéu côco... - Hihh! Minha água acabou! – chapéu Panamá, chapéu de palha, chapéu de Cow-boy, igual ao que John Wayne usava , chapéu de malandro e o que mais se puder imaginar.
Seja lá o chapéu que for, é complemento de personalidade. Eu insisto. Experimente colocar um chapéu côco em Santos Dummont, vai ficar parecido com Carlitos, não vai? Viu só?! É complemento de personalidade!
Ai, que calor ! Minha água de côco acabou... Acho que vou comprar um chapéu. Cadê o vendedor? E se eu não achar um chapéu que combine com a minha personalidade?
Melhor não ser intransigente, porque tá muito quente.
Que tal... Chapéu é complemento de personalidade, dependendo das circunstâncias?
Ah! Agora sim! Perfeito!
Cadê o vendedor?

O Despacho (Ana Lidia Pimentel)


Carlão, Zé e Norminha, eram amigos de infância. Dividiram o mesmo bairro e a mesma rua por muitos anos. Eram amigos de verdade. Os três estavam sempre juntos. A casa na árvore, construída no quintal de Norminha, era o refúgio deles.
Era na casa da árvore, que os meninos perguntavam “coisas de menina” para Norminha que, com ares de professora, discursava com doçura, sobre os assuntos, que ela mesma não compreendia muito bem. Da mesma forma, ela perguntava “coisas de menino” para eles que, às gargalhadas respondiam, muito envergonhados, o que supunham ser as respostas certas.
Veio a adolescência e Zé começou a namorar Norminha.
Vieram os anos de faculdade. Norminha formou-se em psicologia, Zé formou-se em direito e Carlão, em economia. Carlão era um verdadeiro “Midas”. Tudo que ele aplicava em operações financeiras, aumentava vertiginosamente. Tanto era assim, que Carlão começou a dar consultoria em investimentos, coisa que lhe rendia um bom dinheiro no fim do mês.
Norminha e Zé se casaram. Passados dois meses, Carlão apareceu com uma namorada nova. Chamava-se Marlene. Carlão estava completamente enfeitiçado por ela. Era uma dessas criaturas insuportáveis que só via qualidades nela mesma e constantemente menosprezava Carlão. A única coisa que ela realmente gostava no Carlão era a generosidade com que ele a presenteava constantemente.
- Essa “piranha” está explorando o Carlão e o bobo nem percebe! – disse Norminha indignada.
- Calma - pediu Zé. - Nós precisamos é fazer alguma coisa para abrir os olhos do Carlão. Vou ter uma conversa com ele. -
Zé chamou Carlão pra conversar e disse tudo que Norminha e ele sentiam a respeito de Marlene. Mas, Carlão estava cego e surdo aos apelos da razão.
Carlão e Marlene se casaram. Marlene continuava menosprezando Carlão, só que, agora, também o ridicularizava, de preferência, em público, deixando-o constantemente constrangido. Norminha e Zé não achavam aquilo normal num casal com tão pouco tempo de vida em comum.
– “Há algo de podre no reino da Dinamarca!”. –Era o que Norminha costumava dizer.
Algum tempo se passou quando, num belo dia, Norminha viu Marlene entrar no carro de um homem que ela não conseguiu reconhecer. Norminha, que achava Marlene uma “biscateira” não titubeou. Seguiu-os. O carro deles entrou num motel. Norminha ligou imediatamente para o Zé, que partiu, sem pestanejar, para a porta do tal motel, com máquina fotográfica e tudo mais. Na saída do motel, Norminha e Zé testemunharam e fotografaram Marlene, ainda trocando beijos com o tal sujeito.
- Puta que o pariu! A filha da mãe está traindo Carlão! E agora? O que vamos fazer? – exclamou Zé exaltado.
Norminha e Zé começaram a analisar a situação sob o ponto de vista psicológico e jurídico. Carlão ia se dar mal. Marlene era casada com ele com comunhão parcial de bens. Tudo que Carlão conseguiu juntar, com trabalho, depois do casamento, teria que ser dividido com Marlene. Carlão tinha sido traído e ainda ia ter que dar dinheiro, pra vagabunda ir curtir com o amante.
- Quais são os bens do Carlão?- perguntou Norminha.
- O apartamento e o carro. - esclareceu Zé.
- E ele não pode vender?- indagou Norminha.
- Para negociar o carro ele não precisa da assinatura dela, mas o apartamento ele não pode vender sem que ela concorde e assine. - respondeu Zé.
-E se por um milagre, ele conseguisse que ela concordasse e assinasse a venda, o que ele pode fazer com o dinheiro que receber? – perguntou Norminha.
- Bem, em tese, ele pode fazer o que quiser com o produto da venda. - esclareceu Zé.
- Acho que tive uma idéia, mas tudo vai depender de como Carlão vai receber a notícia da traição e do que ele vai querer fazer com a Marlene. Vamos procurar o Carlão. - finalizou Norminha.
Norminha e Zé combinaram um encontro com Carlão, à noite, na casa deles.
Quando Carlão chegou à casa de Zé e Norminha, os amigos começaram a difícil missão de contar sobre a traição de Marlene. Com as fotos, que serviram como prova, não havia como duvidar. Carlão perdeu o chão. Nunca se viu Carlão chorar tanto.
De repente, Carlão parou de chorar e disse - Vou dar o troco nessa vagabunda! Só não sei como.
- Mas, eu sei! – disse Norminha.
– Você vai ter que ter muita coragem e paciência, mas acho que vai dar certo.
Carlão enxugou as lágrimas e começou a prestar atenção a tudo que os dois amigos lhe diziam. Depois de umas duas horas de conversa, Carlão disse resoluto: – Eu topo! Faço qualquer coisa para que Marlene não leve a melhor.
Carlão foi para casa.
Marlene, que o esperava, indagou.
– Isto são horas?
- Desculpe-me, meu amor, tive que jantar com um cliente e... sabe como é... - disse Carlão mentindo.
- Tá. Eu vou dormir. - disse a megera.
Carlão ficou na sala, refletindo um pouco. Repetia para ele mesmo que não podia deixar que ela desconfiasse de nada. Um pouco mais calmo, foi tentar dormir também.
No dia seguinte, bem cedo, Carlão começou a por em ação o plano.
- Estive pensando... – começou Carlão.
- Pensando? Você? - debochou Marlene.
Carlão apertou uma mão contra a outra com força pra não perder o controle.
- Pois é. Estive pensando que poderíamos nos mudar deste bairro e ir para um bairro melhor. Que tal?- perguntou Carlão.
Marlene ficou radiante e foi logo dizendo: – Que maravilha! É tudo com o que sonhei!
- Bem, então, vou procurar um novo apartamento. OK? – Perguntou Carlão.
- OK!OK!- respondeu a interesseira.
Dois dias se passaram e Carlão levou Marlene para visitar um apartamento que ele havia selecionado. Era um excelente apartamento em um bairro classe A.
Marlene, ao ver o apartamento, logo se encantou.
- É esse! É esse! - disse Marlene quase sem respirar.
- Parece ser bem caro. - disse Carlão.
- Por favor! Pelo nosso amor! Vamos comprar este! – implorou a vagabunda.
- Está bem. Vou ver o que se pode fazer. – disse Carlão.
No dia seguinte, Carlão chegou em casa cabisbaixo e Marlene perguntou o que estava havendo.
-É que o apartamento que você gostou é mais caro do que pensei. Não vamos poder comprá-lo. - lamentou Carlão.
- Ah! Não... Não vou me conformar. Você vai ter que dar um jeito. – disse ela emburrada.
-Bem, na verdade, existe uma solução, mas não acho que seja a mais indicada. Teríamos que vender este apartamento onde moramos, para dar de entrada no outro. O restante terá que ser pago em prestações. – esclareceu Carlão.
- Então é isso que vamos fazer! Não tem mais discussão. Vamos vender este apartamento, pra poder comprar o outro. - decidiu Marlene.
- Está bem. Se você quer assim, meu amor... Depois não diga que não te orientei bem. – advertiu Carlão.
- Eu não preciso de você para me orientar. Vamos fechar negócio. – concluiu Marlene.
Uma semana depois, Marlene e Carlão foram ao cartório assinar a escritura de venda do apartamento. Carlão recebeu a quantia em dólares, dizendo ser exigência do novo proprietário do apartamento. Marlene voltou para casa, enquanto Carlão, que disse que iria dar o sinal do apartamento novo, pegar recibo e tratar dos papéis de compra, na realidade, foi ao escritório de Zé que já o estava esperando.
No dia seguinte, Carlão, como sempre fazia, saiu para trabalhar. Marlene, como já era de se esperar, foi encontrar-se com o amante. Carlão, que desta vez, não havia se afastado da esquina, viu Marlene pegar um táxi.
Ele voltou ao apartamento. Em seguida chegaram Norminha e Zé. Os três conversaram bastante e acertaram os detalhes finais do plano. Norminha e Zé saíram para por mãos à obra. Carlão escreveu um bilhete, pegou uma pequena valise com uma muda de roupa e saiu batendo a porta do apartamento. Passou pela portaria, cumprimentou o porteiro e ganhou a rua. Nunca mais ninguém o viu por aquelas bandas.
No fim da tarde, Marlene voltou ao apartamento. Surpresa, ela encontrou o apartamento completamente vazio e apenas um bilhete dizendo: “Antes tarde do que nunca. Adeus”. Ainda atordoada, não conseguia entender o que havia acontecido.
Correu ao novo apartamento e ao chegar lá, viu uma mudança entrando. Mas, não era a sua mudança. Agora, estava tudo muito claro. Ela havia sido enganada por Carlão.
Voltou ao antigo apartamento completamente vazio e de lá, ligou para o Zé.
- Alô, Zé? Já entendi tudo. Mas, eu tenho meus direitos! – esbravejou ela.
- Direitos sobre o quê? – perguntou Zé.
- Sobre tudo o que é do Carlão. Meio a meio. – disse ela.
- E o que é que é do Carlão?- indagou Zé.
- O carro, o apartamento... Tudo! – berrou Marlene muito irritada.
- Que carro? Que apartamento? – ironizou Zé.
- Filho da mãe! Aquele idiota me passou para trás e vocês o ajudaram! Eu... – Marlene ouve um clique. - Alô! Alô!... Desligou!
Do outro lado, Zé e Norminha comemoravam o sucesso do plano.
No dia seguinte Zé entrou com o pedido de divórcio de Carlão. Sem bens a dividir, sem filhos e com as provas de adultério, o processo correu sem problemas e quando ficou concluído, Zé e Norminha foram dar a notícia a Carlão. Morando numa casa alugada, na praia, Carlão nem parecia aquele de antigamente. Estava bem, mas ansioso para retomar sua vida e seu trabalho, sem temores.
-E aí? Trouxeram o despacho?- perguntou Carlão rindo.
-Claro que trouxemos o despacho! O do juiz! – responderam, rindo também.
- E que DESPACHO!- disseram os três em coro e rindo.
E Carlão, aliviado, finalizou: – Este é o despacho que despachou a megera! Hahahahaha !

Toca pra frente ! (Ana Lidia Pimentel)


Sol forte. Calor inclemente. Nenhuma nuvem no céu.
Água, água, água... É tudo em que se pensa.
Vamos todos morrer torrados! E se for pra morrer torrada, prefiro
morrer biscoito!
O cérebro começa a dar sinais de superaquecimento.
Idéias tolas brotam como se pudessem acontecer.
O sol queimou a censura e pensa-se no que se quer.
Quero meu juízo perfeito! O coração, pode permanecer mole.
Também quero uma piscina. Água cristalina refletindo céu e sol.
Nela, o céu vai continuar azul. Mas o sol, fresquinho.
Quero uma piscina! “Tá na hora de molhar o biscoito!”
- Olha, eu quero uma piscina assim e assado. Entendeu? Então faça!
O sol continua quente e acho que fiquei demente. Pensei que piscina
fosse só um buraco azulejado.
- O senhor não me disse que ia ser tão complicado...! Que demora...! Toca pra frente!
Pago contas. Cimento, brita e areia... Só nessa hora fico gelada.
Que idéia idiota! Um chuveirão resolveria o problema! Mas não refletiria céu e sol.
- Toca pra frente!
Cimento , brita, areia...
- Ainda não tá pronta?
Hummm... O que é aquilo? Nuvens? Acho que vai chover...! Ah, tudo bem...!
Se chover refresca!
E pra que é que eu quero uma piscina se estiver fresco?
- Tá pronta? Não? Toca pra frente!
Acho que é só uma frente fria. Chove, refresca e o sol reaparece. Tomara!
Cimento, brita e areia... Cimento, brita e areia...
- Pra que tanta areia? Não é praia! É piscina! PIS-CI-NA! Toca pra frente!
Choveu, refrescou e o sol não reapareceu.
Está quase pronta. Já comprei os azulejos.
Vou pintar uma plaquinha dizendo: “Roga-se não fazer xixi na piscina”.
Ficou ótima! Escrevi “xixi” com tinta amarela !
Isso me divertiu. “Xixi” com tinta amarela!
- E aí? Tá pronta? Quero a piscina pronta antes do verão acabar! ENTENDEU?
Toca pra frente! Toca pra frente!
Agora o que me esquenta a cabeça é a piscina... Pode?!
Mais uma frente fria. Chove.
Continua chovendo.
Já não reclamo mais do calor. Só da piscina inacabada.
- Como é que é? Vai ou não vai?
Tarde demais pra me arrepender. Só falta colocar os azulejos.
- Tá pronta? Ótimo! Bota pra encher! Encheu? Bota cloro!
Ficou linda a piscina. Água cristalina como imaginei.
Sem reflexos de céu ou sol. Por essa, eu não esperava...
De cabeça fria, piscina não tem graça. Não tem ares de salvação.
Vou ver a previsão do tempo. Com sorte esquenta!
Que nada! Tem frente fria estacionada sobre a região.
E o tempo passa devagar, como se estivesse com calor.
Mato as horas retocando a plaquinha com tinta amarela.
Lei de “Murphy”! Se não tivesse piscina, continuaria o maior calorão!
Vou esperar com paciência. Paciência que não tive quando o termômetro
passou dos 40 graus.
Paciência...!
Tanto cimento, brita e areia... Toca pra frente !

Eco do nada (Ana Lidia Pimentel)











Eu digo, eu falo, eu grito
E não ouço resposta
Só o eco solitário da minha voz
Repetindo, repetindo...
Digo, não digo?
Não sei... Não há resposta
Resta esperar, esperar...
Que o pensamento encontre as palavras
Que as palavras encontrem o alvo
Que o alvo responda
E que alcance o coração
Que o coração não abandone o amor
E que o meu amor não seja só um eco do nada...

A Cadeira Extra (Ana Lidia Pimentel)



Nasci igualzinha às minhas sete irmãs. Num total de oito, éramos muito orgulhosas de nossa linhagem, afinal de contas, nascemos por encomenda. Made in Brazil, sim, mas no século XIX!
Uma coisa que nunca entendi, em criança, era o porquê de sermos oito, se à volta daquela linda mesa de jantar, de mesma origem e idade, só ficavam seis de nós. Duas de nós sempre ficavam nos cantos da sala de jantar, geralmente, ladeando um belíssimo aparador. Depois, descobri que eu era uma cadeira extra. Se aparecesse visita, lá estava eu, pronta para acomodá-la. Ainda posso sentir o cheirinho daquelas comidas deliciosas. Poucas vezes provei delas e assim mesmo através de pedacinhos que caíam acidentalmente sobre mim, devido à imperícia das crianças no manuseio dos talheres. O Pai sentava-se à cabeceira, duas meninas de um lado e dois meninos de outro. Na outra cabeceira, sentava-se minha dona, mãe e esposa amantíssima. Como era gentil aquela senhora, uma dona-de-casa para ninguém botar defeito. Nunca nos arrastou ao sentar-se à mesa. Já com as crianças, era um terror. Acho mesmo que ficamos mais baixinhas, de tanto que nos arrastavam fazendo uma verdadeira raspagem em nossos pés. As nossas pernas ficavam bambas e nossa dona por incontáveis vezes teve que chamar o Sr. Antônio, o marceneiro, para consertar-nos. O Sr. Antônio era um homem grande, de longos bigodes e um forte sotaque. Era português de origem, mas já estava no Brasil há muitos anos, muito embora o sotaque permanecesse intocado. Apesar de ser corpulento, o Sr. Antônio era gentil. Tratava-nos como se fossemos rainhas. Enquanto trabalhava, elogiava a madeira de que éramos feitas e o capricho de quem nos criou. Costumava dizer: - Nem parece que foram fabricadas cá no Brasil. Podem ter sido feitas aqui, mas com certeza, por algum patrício meu.
Não fosse pelo zelo da arrumadeira, eu jamais teria sabido o que era ser uma cadeira da mesa de jantar. Teria sido sempre a cadeira extra, a cadeira do canto, a cadeira do aparador.
D. Filomena, também portuguesa, mas quase sem sotaque, era muito caprichosa em seus afazeres. Ela fazia o rodízio das cadeiras para que nenhuma ficasse mais desgastada que as outras. A pobre criatura sofria de terríveis dores nas pernas devido às varizes. Depois que ela limpava e arrumava a sala de jantar, ela sempre se sentava em mim ou na minha irmã do outro lado do aparador e descansava as pernas um pouquinho. Também era ela quem chamava minha dona para mostrar a necessidade deste ou daquele reparo. Ah! Que tempo bom era aquele... A família toda reunida em torno da mesa de jantar (que também era de almoço, lanche, ceia...).
Lembro-me bem do primeiro grande golpe de minha vida. Foi bem no finalzinho do século XIX. Minhas irmãs e eu ainda éramos jovens. Seria uma manhã como outra qualquer, não fosse o entra e sai de gente que nós nunca tínhamos visto antes. As crianças fizeram o desjejum na cozinha e logo foram mandadas para a Fazenda da família, acompanhadas pelas amas e por dois dos mais antigos e fiéis empregados da família. Mas... O que estava acontecendo? Ninguém vinha à sala de jantar. Todos sussurravam. Eu não conseguia ver nem ouvir nada, mas sabia, ou melhor, sentia que algo estava acontecendo. Finalmente D. Filomena, que tinha o hábito de falar consigo mesma, entrou na nossa sala, para a limpeza e arrumação habitual. Ela não só resmungava, mas também parecia estar chorando.
- Valha-me minha N. S. das Graças! Se o patrão não agüentar... O que vai ser desta família? Ó raios! Mas como é que ele foi pegar esta tal de gripe espanhola?
Duas semanas se passaram e o nosso dono não melhorava. Os médicos já não tinham esperanças. Muito enfraquecido pela doença, nosso dono não resistiu e morreu.
Nossa dona estava triste como jamais havíamos visto. Mandou buscar as crianças na fazenda e logo que eles chegaram, receberam a triste notícia. Choraram. Choraram muito. Choraram até que o sono viesse para aliviar aquela dor imensa em seus coraçõezinhos. Nós, firmes por natureza, também entristecemos.
Mais uma de nós deixaria de ser ocupada durante as refeições.
Estranhamos muito o fato de que, a primeira vez que fomos usadas depois do falecimento do nosso dono, não foi numa refeição. Eles chamaram aquela reunião de "Leitura do Testamento". Foi depois daquele dia, que nossas vidas mudaram completamente. Pelo que pude entender, a família, que tinha seus proventos oriundos da plantação de café e de algum gado leiteiro na fazenda, não ficou em boa situação financeira. Sem liquidez, diziam. Nossa dona resolveu vender a casa da cidade e ir morar na fazenda, para poder administrar mais de perto os cafezais e o gado.
E assim foi. A casa foi vendida. Porteira fechada, diziam. E, como nós estávamos dentro da porteira, nós ficamos.
A nova família que ali se instalou, era formada por um jovem casal e dois filhos gêmeos, de aproximadamente quatro anos de idade. Os nossos novos donos pareciam ser ricos, mas com certeza, não tinham a mesma educação que os antigos. As crianças não tinham limites e mexiam em tudo. D. Filomena, que também ficou dentro da porteira, se desesperava. Nós oito, agora mais experientes e sofridas, lamentávamos a nossa sorte. Os gêmeos endiabrados, gostavam de sentar nas cadeiras que ladeavam o aparador. Pisavam na palhinha do assento, pulavam, sacudiam o encosto e até faziam xixi sobre nós duas.
D. Filomena vinha, limpava e resmungava: - Esses “putos” vão dar cabo da mobília-!
O Sr. Antônio foi chamado várias vezes, mas os guris, cada vez mais encapetados, não tinham sossego.
A mãe, não gostava de amas e nem de governantas, dizendo que ela mesma queria se encarregar da educação dos filhos. O que ela não sabia é que não se pode dar o que não se tem. Numa das vezes em que o Sr. Antônio foi chamado, ele falou à nossa nova dona, que era uma pena que cadeiras e mesa de tão boa qualidade, estivessem tendo aquele tratamento. Reconhecendo que os filhos eram bastante “agitados”, nossa dona resolveu comprar um cachorrinho para os garotos.
-Quem sabe assim eles se dedicam ao cachorro e esquecem a mobília?
Lembro-me de ter pensado que eles não só não esqueceriam a mobília, como também iriam fazer do cachorro ou um mártir, ou um louco. A segunda opção prevaleceu. O cachorro, era quase tão doido quanto os garotos. Não demorou muito para o cão começar a urinar em nossas pernas. O tempo foi passando. D. Filomena pediu as contas e nós estávamos arriscadas a apodrecer a poder de mijo. Mas, o pior ainda estava por vir. O cachorrinho endiabrado começou a roer as minhas pernas .
Por que só as minhas pernas? Não sei e nem nunca fiquei sabendo. Minhas pernas ficaram tão roídas e tão feias, que minha nova dona me retirou da sala de jantar. Aliás ela retirou minha irmã, que ficava do outro lado do aparador, também. Fomos morar num quartinho de guardados. O quartinho era uma bagunça, mas pelo menos estávamos livres dos garotos e do cachorro.
Meu Deus! – eu dizia à minha irmã - Que diferença da nossa antiga dona!
Acho que ficamos ali no quartinho por alguns anos.
Um dia, ouvimos a voz do Sr. Antônio. Sim, sim! Era ele!
Abriu a porta do quartinho em busca de um pedaço de madeira, com o qual pudesse consertar algo, que os gêmeos, mais velhos, mas não menos endiabrados, haviam destruído.
Ao nos ver, ali dentro e naquele estado, o Sr. Antônio ficou desconsertado.
- Mas o que foi que fizeram a estas cadeiras, meu Deus? Isto é um pecado!
Ele aproximou-se mais e avaliou os estragos. -Isto é um pecado! Vou ver o que se pode fazer .
Pegou o pedaço de madeira que precisava e saiu.
No fim do dia, o Sr. Antônio voltou ao quartinho. Pegou–nos em seus braços, ainda muito fortes e nos levou para fora.
-Ó, minha senhora ! A senhora não quer me vender estas duas cadeiras?
– Vender? – perguntou ela.
-Pois sim , vender!
- Bem... mas... eu não sei quanto elas valem.
- Valem muito minha senhora. Mas, no estado em que estão, há que se gastar bastante dinheiro para recompô-las.
-O senhor quer trocá-las pelo serviço que acabou de executar?
-Negócio fechado !
E lá fomos nós para a oficina do Sr. Antônio. Lá, ele cuidou muito bem de nós. Trocou minha perna roída por uma nova da mesma qualidade de madeira, que ele mesmo confeccionou. Chamou o homem que colocava palhinha e trocou as nossas palhinhas, dos acentos e dos encostos. Deu lustro na nossa madeira e... Voilà! Estávamos novinhas outra vez. Quanta felicidade. Que homem generoso era o Sr. Antônio. Ficamos algum tempo morando na oficina, até que, um dia, o nosso benfeitor levou lá um homem muito bem educado e culto que, só de nos ver, disse o ano de nosso nascimento, estilo, tipo de madeira, etc. Olhou detidamente para mim e para minha irmã. Acho até que ficamos um pouco encabuladas. Depois, disse assim -Fico com elas, Antônio. Elas valem o preço que você me pede e eu pagarei feliz. Apertaram as mãos e lá fomos nós duas, morar na casa do tal senhor. Chegando lá, descobrimos que não era a casa dele, mas uma loja muito bonita, cheia de objetos e móveis, que pareciam ter e tinham estirpe. Era um antiquário. Nessa loja, só entrava gente muito fina e de bom gosto. Quando nos olhavam, sempre elogiavam. Aquilo nos fazia bem, depois de tantas desventuras.
Era bom estar ali, mas nós sabíamos que aquele não era o nosso lar definitivo, pois víamos que os objetos e móveis eram vendidos, trocados ou comprados, dia a dia.
Alguns anos haviam se passado, quando um dia, uma jovem senhora, muito distinta, entrou na loja e dirigiu-se ao patrão, perguntando se ele não teria ali cadeiras, assim, assado... Ele, imediatamente, apontou para nós. Aproximando-se, a tal senhora exclamou: -Exatamente o que eu estava procurando! Vou levar!
Sem fazer questão de preço, a distinta jovem senhora nos colocou em um carro e nos levou para nossa nova casa. Era uma casa grande e bem cuidada que lembrava a nossa primeira casa. Não havia crianças. Só ela e a mãe. A senhora mãe, me era tão familiar... Um dia, minha irmã e eu a ouvimos contar à filha, como a gripe espanhola havia matado seu pai e como eles foram viver na fazenda com a mãe... Eu não podia acreditar no que estava ouvindo. Mas, era fato. Aquela velha senhora era uma das meninas da nossa primeira família. Quanto tempo havia passado? Quanto mais ela falava de sua infância, mais certeza eu tinha. Era incrível! Muito tempo havia passado.
Como éramos apenas nós duas, não fomos colocadas na sala de refeições e sim, na sala de estar, fazendo conjunto com um sofá que, sem dúvida, era nosso parente. Mesma madeira, mesmo estilo... Sim, era nosso primo. Tanto ele quanto nós, gostamos muito desse nosso encontro. Estamos até hoje nessa mesma família. Hoje, uma outra geração.
Mas a mesma família. Moramos, agora, na casa de uma das bisnetas daquela velha senhora, cuja filha nos resgatou.
E assim, acaba esta estória, que comprova que o mundo é pequeno, redondo e dá voltas. O que vai acontecer daqui pra frente, eu conto numa próxima vez.